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Praticar esporte rende bolsa de estudo nos EUA

A jovem de 19 anos Paula Maraschin Furtado Martins, de Niterói, no Rio de Janeiro, joga vôlei pela Northern State University, no estado de Dacota do Sul, desde julho do ano passado. Por integrar o time da instituição, recebe uma bolsa de 100% para cursar relações internacionais.

 

A estudante e atleta se interessou pela possibilidade de estudar no exterior e pagar pela faculdade praticando o esporte que gosta porque algumas jogadoras do mesmo clube onde Paula atuava até embarcar para os EUA, o Niterói Volei Clube, tinham feito o mesmo em anos anteriores e contavam que era uma experiência vantajosa. Os técnicos também incentivavam a prática.

 

“Vale muito a pena. O que eu mais gosto é o fato de estar em um lugar com uma cultura totalmente diferente, pessoas novas, aprendendo uma outra língua e, além de tudo, jogando vôlei”, conta.

 

Para se candidatar ao benefício é preciso praticar um esporte em nível competitivo, mas não profissional. O atleta não pode ter recebido para jogar, pela regra das universidades americanas. “Eles consideram que dar uma bolsa a um profissional é uma covardia com o atleta amador”, explica Gilberto Junior, que passou por duas faculdades jogando futebol entre 2005 e 2008.

 

Antes de embarcar, o carioca agora com 30 anos e funcionário da área de suprimentos de uma empresa que desenvolve projetos de engenharia para a Petrobras, era integrante das categorias de base do clube América, do Rio. “Tive sorte de não ter chegado a ser profissional por aqui. Assim, o futebol me deu a melhor coisa que fiz na minha vida”, avalia o agora ex-jogador.

 

Além das práticas esportivas, há exigências acadêmicas para obter bolsas de graduação nos EUA. A principal delas é ter terminado o ensino médio com boas notas. Thaïs Burmeister Pires, gerente do Centro de Orientação EducationUSA-Alumni, explica que as universidades convidam alunos que sejam bons na quadra e na sala de aula. “Quanto melhor aluno e atleta o jovem for, mais chances terá de conseguir bolsas maiores em instituições melhores”, explica a representante no Brasil da rede global afiliada à seção de Educação e Cultura do Departamento de Estado dos EUA.

 

Os técnicos esportivos de faculdades norte-americanas têm um orçamento para bolsas à disposição e podem distribuí-las da maneira que considerarem pertinente. “Eles podem escolher entre dar quatro bolsas de 100%, que cobrem todos os custos universitários, de alimentação, o material escolar e esportivo, além da moradia em um dormitório estudantil, ou distribuir o benefício parcialmente para mais alunos”, diz Felipe Fonseca, “A maioria consegue bolsas de 40% a 80% do custo total”, completa.

Talento e muito treino proporcionam a atletas brasileiros oportunidade de cursar uma graduação em universidades norte-americanas.

Foto: Arquivo Pessoal

Paula Martins estuda e joga vôlei na Northern State University, no estado de Dacota do Sul

Foto: Arquivo pessoal
Gilberto Junior: "O futebol me deu a melhor coisa que fiz na minha vida”

Estudar e praticar – a sério – um esporte nem sempre são tarefas simples de conciliar. Nos Estados Unidos, no entanto, é uma rotina comum e incentivada por faculdades, que dão bolsas para atletas com boas notas frequentarem suas instituições e competirem por elas nas ligas esportivas acadêmicas daquele país. A boa notícia é que elas podem ser distribuídas para alunos estrangeiros, e atletas amadores brasileiros estão aproveitando seus talentos e anos de treino para conseguir uma vaga em curso superior nos EUA.

Fluência na língua não é obrigatória?
A fluência na língua inglesa é outro aspecto importante na disputa por vagas, mas a falta dela não chega a ser um impeditivo para que um bom atleta possa defender um time de instituição de ensino. Em muitas universidades, é exigido do aluno o teste de proficiência em inglês Toefl e um exame de matemática e inglês cobrado para ingressar em curso superior, o SAT. Mas algumas faculdades menores e menos rígidas aceitam que alunos com pouca habilidade com a língua cursem cadeiras de inglês e de disciplinas em que a conversação não é tão importante para o aprendizado nos primeiros semestres. “Eu não falava nada”, conta Gilberto, que ficou um ano estudando só inglês, educação física e espanhol até conseguir passar no Toefl e começar o curso de graduação para valer.

 

Mal dá para imaginar, porque não é assim nem no Brasil, nem em nenhum outro país do mundo. Só nos Estados Unidos o esporte universitário cresceu a tal ponto que a NCAA, entidade que dita regras e organiza competições, faturou US$ 913 milhões no ano fiscal de 2013. São R$ 2,1 bilhões. Lembre-se que a CBF, toda poderosa do futebol brasileiro, com um ativo como a seleção brasileira, faturou R$ 436 milhões em 2013. É um quinto da colega americana.

 

Outra comparação, de clubes brasileiros versus universidades americanas, também dá a dimensão do negócio por lá. Os 123 times que participam da divisão de futebol americano da NCAA reportaram uma receita combinada de US$ 3,2 bilhões em 2013 ao Departamento de Educação dos EUA. São R$ 7 bilhões. No Brasil, a elite do futebol – primeira divisão, com Vasco no lugar da Chapecoense – arrecadou R$ 3,1 bilhões em 2013. Faltam aí dados das Séries B, C e D para a comparação ficar correta, mas deu para, de novo, ter uma noção da diferença.

 

Isso em dinheiro. Em público, o futebol americano da NCAA levou 50.291.275 torcedores aos estádios em 2013 – sim, 50 milhões. A média de público foi de 45.671 por jogo. A conferência Sudeste, a mais forte dos EUA, teve média de 75.674 por partida. E a Universidade de Michigan levou 111.592 torcedores em média durante a temporada. Repito: em média. Isso não é NFL, a liga profissional, mas futebol americano entre universidades.

 

 

O que é que o esporte universitário tem?
Universidades americanas são a base do esporte nos Estados Unidos. São delas que saem atletas que disputam – e quase sempre vencem – Jogos Olímpicos e ligas profissionais como NFL (futebol americano), NBA (basquete), MLB (beisebol) e NHL (hóquei). Essas instituições têm uma ferramenta incomum para atrair público: nostalgia. Quem estuda em uma universidade cria identificação e vê no esporte um caminho para voltar a ela, reviver bons tempos e torcer pelos times da casa. É um vínculo diferente do que tem um torcedor de um time de futebol brasileiro, mas igualmente poderoso nas mãos de bons marqueteiros.

 

O esporte universitário tem relevância cultural entre a população há mais de um século. Em 1905, o então presidente americano Teddy Roosevelt convocou a cúpula do governo para discutir o futebol americano das universidades e deixá-lo menos violento. Décadas depois, este esporte também teve papel na luta dos negros por direitos civis e uso político por Richard Nixon, outro presidente, na conquista eleitoral do Sudeste, reduto dos democratas.

 

São fatos que mostram que a relação entre americanos e esportes universitários é profunda e centenária. Numa nação que torna esporte em espetáculo, extremamente profissional na gestão do esporte, esta matéria-prima virou um negócio multibilionário.

 

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